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Movimento Cultural / Bibliografia: – Gilberto Freyre, um dos escritores mais criativos do país (parte 1) (*)

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Gilberto Freyre, um dos escritores mais criativos do país (parte 1)

  • O fato é que Freyre ficou famoso ainda jovem, por volta dos seus 30 anos, quando publicou Casa-grande & senzala, depois Sobrados e Mucambos (1936) e, mais tarde, Ordem e Progresso (1957), fechando uma trilogia sobre a História da sociedade patriarcal no Brasil

Gilberto Freyre foi um dos intelectuais brasileiros mais conhecidos na cena internacional e nacional do século passado. Em 1948, ele foi chamado pela Unesco para fazer parte de uma reunião com oito estudiosos do mundo todo para discutir as tensões que levavam os países a entrarem em guerras. Sentou-se ao lado do célebre teórico Max Horkheimer.

O autor de Casa-grande & senzala foi um dos poucos pensadores brasileiros, assim como Josué de Castro, a falar sobre questões que afligiam o planeta e não apenas temas relacionados ao Brasil. Para chegar até aí, Freyre percorreu um longo caminho, mas o que mais pesou foi a fama que angariou com seu livro Casa-grande & senzala, publicado quase vinte anos antes (1933).

Ao longo de sua trajetória, e em razão de escolhas políticas controversas e posições polêmicas, ou da insistência em dizer que o racismo, embora existisse, não era um problema central no Brasil, isso pelos idos na segunda metade do século 20, quando já existiam vários estudos provando o contrário, Freyre se tornou persona non grata em muitos círculos intelectuais. Mas quem se interessar um pouco mais em estudar o Brasil sabe que Freyre pautou muitas das discussões sobre a nação e seus problemas centrais, como modernização, relações raciais (esse o ponto mais polêmico), região, ecologia etc. Sabe também que uma obra tão vasta, como Casa-grande & senzala, traduzida em diferentes países e com dezenas de edições no Brasil não pode ser resumida a chavões ou um breve parágrafo ou comentário. Não dá para entender o Brasil, com suas contradições, seus problemas e suas ficções sem passar pela leitura de Gilberto Freyre, inclusive o autor sendo parte dessas contradições que formam o Brasil.

O fato é que Freyre ficou famoso ainda jovem, por volta dos seus 30 anos, quando publicou Casa-grande & senzala, depois Sobrados e Mucambos (1936) e, mais tarde, Ordem e Progresso (1957), fechando uma trilogia sobre a História da sociedade patriarcal no Brasil. Escreveu, porém, muitas outras obras, dezenas, aliás, sobre arte, sobre medicina, sobre região, sobre moda, sobre Brasília, sobre arquitetura, sobre açúcar, sobre castigos físicos, sobre pós-modernidade e outra outros temas, incluindo a escrita de romances. Mas foi seu livro de 1933 que conquistou o mundo e abalou o meio intelectual brasileiro.

Em seu texto de mais de duzentas páginas, com um modelo de escrita muito próprio e original para a época e ainda para os dias de hoje, logo chamou atenção e criou rebuliço. Primeiro por tocar em pontos sensíveis da história nacional, até então um emaranhado de textos que destacavam feitos heróicos, guerras, batalhas e documentos oficiais. Freyre, ao contrário, buscou escrever uma história pautada em elementos da cultura material, sobre a vida social nas casas-grandes patriarcais dos tempos coloniais. Uma história que transformou situações e fontes históricas aparentemente sem relevância para os historiadores, como receitas de bolo, brinquedos, manifestações da cultura popular, danças, cantigas, diários pessoais , em peças centrais para entender a formação do Brasil, Freyre escreveu sobre sexo, violência, comida, festejos, cantigas, torturas, vestimentas e outros tantos elementos para retratar o Brasil profundo, íntimo, antagônico, das casas senhoriais, e mais especificamente o Nordeste, porque foi nesta região (na época ainda chamada de Norte) que se concentrou grande parte da economia e política dos primeiros séculos da colonização. Além da escrita e dos temas “escandalosos” sobre o qual tratou como troca de casais entre senhores e sinhás, das violências das senhoras com as escravizadas, foi um aspecto, em especial, que abriu os olhos dos seus pares intelectuais e o alavancou como figura de proa da intelectualidade brasileira entre os anos de 1930 e 1950: o fato de tentar, com as ferramentas intelectuais que dispunha, usando o léxico da época, mostrar que o maior trunfo do Brasil em relação à Europa ( tão ovacionada por seus pares como centro da civilização na Belle Époque), ou aos Estados Unidos, era o fato de sermos um país miscigenado e principiante por termos a presença africana nessa mistura. Se hoje sabemos que não há uma só pessoa no mundo que não seja “mestiça”, na época era comum se falar em raças puras para dizer que um povo era superior a outro e, no Brasil, esse critério estava pautado na cor da pele. Para muitos intelectuais, estrangeiros e brasileiros, o Brasil estaria fadado ao fracasso por conter na genética de seus cidadãos, o sangue negro e indígena.  Freyre pensava exatamente o contrário.

(*) Autora/Fonte: – Cibele Barbosa
Historiadora e pesquisadora da Fundaj  – Publicado pelo Diario de Pernambuco


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