Movimento Cultural/Homenagem: – Galo Folião Fraterno – Por Zezita Torres (*)
“Galo Folião Fraterno”

– HELDER CÂMARA *
Helder, o Humilde,
Apascentava sonhos
Como quem alimenta passarinhos:
De grãos imprevistos,
Milagrosamente chegados à terra,
Com a promessa da Montanha.
Helder, verbo intransitivo,
Abriu os braços à vida dos mangues
E das favelas do Recife.
Aos pequenos das ruas
E aos hóspedes da madrugada.
Abriu os braços: vinde a mim,
A esta piedade que me martiriza
Com seu espinho
E me salva com a esperança.
Este é o desígnio: os espinhos
Sempre vêm antes que as rosas
E o seu perfume.
Helder Luz
Com a claridade do verbo,
Ajudou o amanhecer da longa noite.
Escura, longa noite de trina anos,
Quando faltou pão e liberdade
E o milagre de sua palavra
Alimentou famintos e enfureceu tiranos.
Helder,
Vermelho de divina cólera,
Vergastou os ceifadores
De sonhos e de crenças,
Os usurpadores da vida.
Helder Templo,
Sempre esteve aberto e iluminado
Para presença de Deus na terra,
Entre os homens.
- *Laurene Almeida (in memoriam), natural de Pesqueira, foi membro da APLA – Academia Pesqueirense de Letras e Artes. Contemporâneo do “Arcebispo Vermelho”, o poeta, traduziu com beleza e sensibilidade a grandeza de um coração sufocado: na “piedade que me martiriza /Com seu espinho / E me salva com a esperança. / Este é o desígnio: os espinhos / Sempre vêm antes que as rosas / E o seu perfume”, diz Laurene.
Obra “Pesqueira Versos Universos” Recife: Ed. Do Autor, 2002. 210p.
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A maior agremiação carnavalesca do mundo – “O Galo da Madrugada”– exibe em 2026 detalhes de sua imponente alegoria com o título “Galo Folião Fraterno”. Tem o artista plástico Leopoldo Nóbrega como o responsável pela concepção e design da gigante escultura. O artista plástico Júlio Gonçalves, de 86 anos, utilizando aparas de papel, montou um grande coração vermelho como símbolo de Dom Helder Câmara.
Duas figuras, humanas, fraternas, e que tiveram destaque no cenário mundial, são homenageadas: Dom Helder Câmara (1909-1999) e Nise da Silveira (1905–1999).
Nise da Silveira (1905–1999), alagoana, psiquiatra, ficou conhecida por seu trabalho de humanização na saúde mental, ao substituir antigos métodos de tratamento pela arte-terapia como ferramenta de cura e comunicação com o inconsciente. Conjugados ao afeto e à valorização da produção artística dos pacientes, os novos procedimentos têm alcançado êxito. Nise ainda revolucionou, introduzindo animais como “co-terapeutas” no processo de cura, técnica hoje mundialmente reconhecida.

Dom Helder era pura alegria do frevo. A Igreja celebra os 117 anos do cearense que, por vezes, chegou a juntar-se a foliões em torno de sua “casinha” na Rua das Fronteiras, e em blocos líricos no Recife Antigo. Foi arcebispo de Olinda e Recife de 1964 a 1985, tempo marcado pela ditadura militar. Estabelecendo clara resistência ao regime, tornou-se um grande líder contra o autoritarismo, e um especial defensor dos direitos humanos. Após a redemocratização, recebeu diversos prêmios internacionais em reconhecimento por sua trajetória, e foi agraciado com o título de “Patrono dos Direitos Humanos”. Por quatro vezes foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz
Usando de sua influência pastoral, denunciava não apenas a violação dos direitos humanos, mas através dos meios de comunicação, homilias nas celebrações das missas, apontava sem arrodeios – como o fez o Cristo no seu tempo -, injustiças, perseguições, torturas que aconteciam no sórdido silêncio de muitos esconderijos. Hoje, janelas escancaradas da verdade. Muita coragem e ousadia desse homem que, de pequeno tinha só o físico franzino.
O “coração vermelho” do Galo bem simboliza o tamanho desse coração pulsante de amor pela causa que defendia. Pulsou, pulsou, pulsou. No dizer do poeta Laurene: Helder, verbo intransitivo.
Perseguido pelos militares, Dom Helder tornou-se alvo direto da repressão. Foi chamado de “Arcebispo Vermelho” pela ditadura e setores conservadores. Os meios de comunicação não podiam falar sobre ele, nem publicar matéria que mencionasse seu nome. Proibido até de frequentar as universidades do país.
Apesar das perseguições, jamais recuou em sua luta profética. Um dos pioneiros da Teologia da Libertação no Brasil, colocou os pobres no centro de sua reflexão teológica e ação política. Defendia a Doutrina Social da Igreja, base do Cristianismo. Nunca ideologias marxistas. Foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que teve importante papel de enfrentamento à ditadura militar brasileira.
Uma das figuras influentes no cenário do século XX, combinou sua atuação em diferentes frentes. Sua voz ecoou para além dos mares, como verdadeiro símbolo de resistência, de fé. Defendeu uma Igreja mais simples, longe de luxo e aparatos medievais. Uma Igreja mais humana, mais próxima da pessoa. Mais coração.
Não sem razão, o Dom escolheu para morar, e ali pontificar, uma casa simples, onde recebia, mesmo os “pobres fedorentos” que o procuravam. E onde, por diversas vezes, sofreu atentados terroristas, como tão bem descreve o jornalista Félix Filho, que reuniu interessantes contos do cotidiano, no seu livro “Além das ideias – Histórias de vida de Dom Helder Câmara”, Cepe, 2022. São testemunhos de sabedoria e profunda espiritualidade que falam da grandeza desse “grande pequeno homem”.
Um ser plural. Teólogo, escritor, poeta. Escreveu vários livros onde se mesclam oração, reflexão social, poesia. Vale a pena ler “Mil razões para viver”, em que foca a esperança e a constante busca pela justiça.
Um místico. Cartas e poemas são verdadeiras conversas com o Divino. Via o rosto de Deus no povo, sobretudo nos marginalizados.
Costumava dizer:
“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Mas quando pergunto por que os pobres têm fome, me chamam de comunista”.

(*) Autora: Maria José Torres Klimsa – Zezita Torres é pesqueirense, intelectual, professora, revisora, acadêmica da APLA Academia Pequeirense de Letras e Artes. É eventual e especial colaboradora do Blog Oabelhudo













