Blog do Abelhudo

Política, Cultura, Economia e outros conteúdos relevantes

Compartilhe em Suas Redes Sociais

Histórias da Calçada

  •  Já não há cadeiras na calçada, nem silêncio compartilhado. Fica a pergunta: que memórias estão sendo construídas agora?

Nos anos 70 e 80, em Goiana, a calçada não era apenas um lugar de passagem. Era ponto de encontro, espaço de conversa e guardiã de histórias que não se perdiam no vento. Eu era uma criança — depois adolescente — e gostava de ficar por perto, atento, ouvindo tudo. Muitas vezes fingia distração, mas estava ali, absorvendo palavras, gestos e silêncios.

No início da noite, quando o calor começava a ceder e as casas iam se aquietando, as cadeiras eram colocadas “para fora”: cadeiras de fio, já gastas pelo tempo, e outras de madeira, simples e resistentes. Era nesse momento que a calçada ganhava vida. As conversas começavam sem pressa, como se o tempo tivesse decidido sentar junto. Eu tinha a clara sensação de que meus pais funcionavam quase como “juízes” daquelas conversas, atentos ao tom, às ironias e aos limites do respeito.

Duas figuras se destacavam naquele cenário e permanecem vivas na minha memória. Ambas, acredito que na época, tinham mais de 75 anos e carregavam uma amizade antiga, construída desde a infância. Uma delas era ex-funcionária dos Correios, aposentada, conhecida pela fama de “braba”. Falava alto, não media palavras e implicava com facilidade. Ainda assim, quem escutava com atenção percebia um humor fino e inteligente, escondido nas frases atravessadas.

A outra era uma ex-professora, também aposentada. Tinha a serenidade de quem passou a vida ensinando e respondia às provocações com ironia precisa. Costumava falar da sobrinha rica que morava no Rio de Janeiro, descrevendo uma vida distante, cheia de contrastes com a realidade de Goiana. A aposentada dos Correios fazia o contraponto, contando as histórias da sobrinha casada com um médico famoso em Recife.

Assim, as conversas caminhavam por lugares e cidades. Saíam da calçada da Rua Direita e viajavam para Recife, seguiam até o Rio de Janeiro. Eu acompanhava esses percursos imaginários, aprendendo geografia, costumes e diferenças sociais sem abrir um livro. E, sem dúvida, foi ali que minha “escuta médica” começou a se formar, alicerçada nas narrativas, opiniões e experiências compartilhadas.

Aquela calçada, porém, não pertencia apenas às duas. Muitos outros personagens interessantes passavam por ali. Alguns se sentavam, outros apenas paravam por alguns minutos. Cada um deixava algo: uma risada, uma reclamação, uma história repetida. A memória de cada um deles segue viva — e ainda haverá espaço para falar dessas pessoas em outros artigos, como merecem.

Hoje, ao olhar para o presente, a comparação é inevitável. As conversas migraram para as telas, as interações acontecem pelas mídias sociais e quase tudo se tornou rápido, descartável, esquecido no próximo clique. Histórias da Calçada falam de um tempo em que a convivência era física, a escuta era paciente e a memória se construía no cotidiano.

Já não há cadeiras na calçada, nem silêncio compartilhado. Fica a pergunta: que memórias estão sendo construídas agora? Que histórias sobreviverão ao tempo?

(*) Autor – Fonte: Eduardo Jorge da Fonseca Lima, médico, conselheiro Federal por Pernambuco. O texto foi publicado na Coluna Artigos do JC


Compartilhe em Suas Redes Sociais

DEIXE UMA RESPOSTA

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Posts