O arquiteto Paulo Mendes da Rocha, aos 91 anos, faz doação de seu acervo com nove mil peças a uma instituição portuguesa

Por Paulinho Muniz / Dom Pablito

Domingo, 20 de Setembro de 2020 07:26
Categoria: Cultura e Arte


Um dos maiores arquitetos do País doou seu acervo a uma instituição de Portugal. O histórico de tragédias e descaso com a arte no Brasil pode ter sido
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Memórias ameaçadas

Um dos maiores arquitetos do País doou seu acervo a uma instituição de Portugal. O histórico de tragédias e descaso com a arte no Brasil pode ter sido a razão

-  (DURA DECISÃO O arquiteto Paulo Mendes da Rocha, aos 91 anos: doação de seu acervo com nove mil peças a uma instituição portuguesa gera incerteza no mundo das artes sobre o capacidade do Brasil em manter seu próprio patrimônio cultural )

Oscar Niemeyer pode até ser nosso arquiteto mais conhecido, mas os holofotes hoje estão em outro gigante: Paulo Mendes da Rocha. Aos 91 anos, workholic assumido e profissional de lucidez impecável, de sua prancheta saíram, entre tantas obras, os projetos do museu MUBE e da Pinacoteca, ambos na capital paulista. O arquiteto anunciou recentemente uma decisão que causou estranhamento e até revolta entre os admiradores mais ufanistas: a doação de seu acervo à Casa de Arquitectura, museu e centro expositivo de Matosinhos, na região metropolitana do Porto, em Portugal.

-  “Casa de Vidro” (acima), museu-residência que reúne parte da obra da arquiteta Lina Bo Bardi em São Paulo, é um bom exemplo de conservação"

“Ele é uma referência para os jovens arquitetos. Em princípio me deu pena, principalmente pelos profissionais que estão chegando. Por outro lado, ele é um nome internacional e pertence ao mundo”, afirma o arquiteto Dado Castello Branco. Apesar de negar que tenha tirado do País as mais de nove mil peças — fotografias, maquetes e desenhos originais — por medo do destino de seu trabalho em território nacional, Mendes da Rocha teria razões suficiente para a expatriação. O número de acervos históricos e artísticos perdidos por descaso ao longo dos anos é enorme. O caso mais recente é o do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, que pegou fogo por falta de verbas e cuidado, levando consigo, por exemplo, toda a coleção de múmias egípcias trazidas por Dom Pedro II durante o Império. Em 2009, o acervo do artista plástico Hélio Oiticica também foi vítima das chamas, assim como o Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro, em 1978, cujo incêndio destruiu obras de valor incalculável de artistas como Picasso e Salvador Dalí. Os roubos também não são raros: do MASP, com um simples pé de cabra, foram levados um quadro de Picasso e outro de Portinari. As obras foram recuperadas, mas nem sempre esse é o caso. Numa sexta-feira de carnaval, em 2006, foram levados uma pintura de Claude Monet, um quadro de Salvador Dalí, um óleo de Henri Matisse e dois trabalhos de Pablo Picasso do museu fluminense Chácara do Céu. Até hoje ninguém foi preso e as obras nunca foram encontradas.

Como em qualquer empresa, uma boa gestão financeira e manutenção do espaço físico, com segurança e limpeza, continua sendo a fórmula mais simples para que as coisas dêem certo. Para a diretora do Museu de Arte Contemporânea (MAC), Ana Gonçalvez Magalhães, há condições essenciais para a preservação de um acervo. “É preciso ter profissionais altamente qualificados e, em relação à infraestrutura, espaços com controle de temperatura e umidade, serviços especializados de manutenção do sistema de ar condicionado, bem como mobiliário adequado para guarda dos objetos corretamente”, explica.

Iniciativa privada

(CASO DE POLÍCIA Obras levadas do MASP em 2007: quadros de Picasso e Portinari foram recuperados em 2010 (Crédito:Marcelo Soares)

Apesar das tragédias, vontade política e incentivo podem auxiliar na preservação da arte no País. Segundo Castello Branco, as coisas funcionam melhor quando a iniciativa privada entra em cena. “A participação das empresas tem acontecido, mas com a pandemia tudo ficou em segundo plano”, diz. Os casos de sucesso são raros, mas existem. Um deles é a famosa “Casa de Vidro”, museu-residência que reúne parte da obra de Lina Bo Bardi. A arquiteta ítalo-brasileira foi responsável pelo projeto arquitetônico do MASP, sua obra-prima que até hoje arrebata visitantes ávidos por observar de perto suas colunas vermelhas e um dos maiores vãos livres do mundo. Às vezes é preciso vencer a burocracia brasileira, como no caso do acervo do bibliófilo José Mindlin e sua esposa, Guita. Apesar de declarar que queria doar sua espetacular biblioteca à Universidade de São Paulo (USP) em 2006, o processo se arrastou e apenas em 2013 a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin foi inaugurada. Quando falamos de doações de acervos artísticos, vale a máxima: antes tarde do que nunca.

-  (INCÊNDIO O acervo do artista Hélio Oiticica: em 2009 as chamas queimaram obras avaliadas em milhões de reais (Crédito:Alessandro Buzas)

Fonte: Revista IstoÉ  -  https://istoe.com.br/memorias-ameacadas/


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