Eleições 2020 - Saudade dos Comícios

Por Paulinho Muniz / Dom Pablito

Domingo, 11 de Outubro de 2020 09:28
Categoria: Crônica, História, Efemérides, Causos e casos


A propósito, os bem-humorados são, também, bem-aventurados. O mal-humorado é ridículo e se leva a sério,
Blog do Abelhudo

Saudade dos comícios (*)

 

Depois de “Privacidade Hackeada” e “O Dilema da Redes”, fiz uma viagem ao passado. Evitei correr o risco de olhar em frente e me apaixonar por um robô. Com o tema é eleição, o dinossauro, aqui, resolveu revisitar os comícios, peças da arqueologia política.

 

Com vênia do inimitável Sebastião Nery, explorei o humor na política em que participei, algumas vezes, como vítima. Tive o privilégio de conviver numa época em que lideranças tinham refinado senso de humor. A propósito, os bem-humorados são, também, bem-aventurados. O mal-humorado é ridículo e se leva a sério, esquecendo que a leveza é uma das seis propostas de Ítalo Calvino para o milênio. Hoje, a Política perdeu a graça. Tudo ofende e é politicamente incorreto. Destruíram o comício, festa cívica e de competição.

 

Showmícios anteciparam a mentira. E a revolução digital criou e difundiu o ódio com crueldade tecnologicamente Comício tinha foguetório, falas quilométricas. Em Vitória de Santo Antão, eloquente vereador, Elias de Miringaba, sem largar o microfone, denunciou: “Zé Misto não puxa meu paletó”. Comício tinha bêbados contumazes. Um deles, em campanha para Governador e Senador (1982), subiu no palanque, decidido e voz engrolada: “vô falá cum meu gunverno, Marcosss Macié”. Maciel, atento e gentil, sinalizou assentindo. O bêbado, turbinado com combustível etílico, deu um aperto de mão e um abraço que quase desmancha MM. Desvencilhado, perguntou polidamente: “o que o senhor deseja?” “Nada, eu..eu só quero consideração”. O silêncio respeitoso selou o abraço.

 

No Recife, as invasões/favelas têm nomes criativos e irônicos: Brasília Teimosa, contemporânea da Capital(derrubavam de dia, reconstruíam à noite), hoje, é um bairro lindamente localizado; Roda de Fogo e Dancing Days homenageavam as novelas; Bola na Rede fica atrás de uma das barras do estádio do Arruda; Entra a Pulso foi uma batalha. No ano seguinte à Revolução Cubana, uma invasão foi batizada como “Cuba” e o líder, Fidel Castro. A partir de 1964, espertamente, Fidel virou Zé Vitor e a invasão, “Sítio das Palmeiras”. Lugar paupérrimo, amenizado pela bondade da “freirinha” que mantinha um afinado coral, os “canarinhos”. Com empréstimo do BNH, a Prefeitura urbanizou a área com regularização fundiária, calçamento, creche, escola. Virei amigo de Zé Vitor.

 

Festa de inauguração: palanque cheio, tome discurso e um locutor, aos gritos, adjetivava exaustivamente os oradores. Na minha vez, esgotado o repertório, ele foi enfático: “E agora vamos ouvir o grande Prefeito, um homem...um homem... de alta periculosidade!”

(*) Autor & Fonte:  -  Gustavo Krause Gonçalves Sobrinho, ex-governador de Pernambuco, ex-prefeito de Recife, é cronista e escritor. Texto publicado originalmente no JC deste domingo, 11-10-2020.


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