Prefeitos gananciosos pelo marketing - Vacina de prefeitura é post para agradar seguidores

Por Paulinho Muniz / Dom Pablito

Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2021 23:29
Categoria: Saúde e Médicos e Saúde Pública


Isso não quer dizer que os prefeitos do Recife, Petrolina e Carnaíba não possam ter os seus pedidos atendidos pelo presidente do Butantan
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Vacina de prefeitura é post para agradar seguidores

Para começo de conversa e, ainda bem que nos seus comunicados, os prefeitos façam a ressalva de que, "se" o MS não for capaz de proceder a vacinação, as suas cidades estarão dispostas a tomar para si a tarefa.

No meio da confusão do Ministério da Saúde, na questão do plano de aplicação da vacina contra a Covid-19, dezenas de prefeitos estão anunciado a formalização de protocolos para a compra direta do imunizante produzido pelo Instituto Butantan, com a chancela do Governo do São Paulo. 

É uma providência interessante do ponto de vista de inserção dos novos prefeitos nas suas redes sociais, embora as chances de que algum deles possa assumir a aplicação de vacinas pela inércia do Governo Federal até agora sejam próximas de zero.

Isso não quer dizer que os prefeitos do Recife, Petrolina e Carnaíba não possam ter os seus pedidos atendidos pelo presidente do Butantan, Dimas Covas, que tem uma lista de mais de 180 cidades com a mesma demanda. Mas sejamos sensatos: como isso poderia acontecer? 

Para começo de conversa e, ainda bem que nos seus comunicados, os prefeitos façam a ressalva de que, "se" o MS não for capaz de proceder a vacinação, as suas cidades estarão dispostas a tomar para si a tarefa.

É importante observar que a vacina do Butantan custa caro, exige disponibilidade de oferta e, na lista de prioridades do Ministério da Saúde, a prefeitura está no fim da fila. O contrato entre o Governo de São Paulo e o laboratório chinês Sinovac tem um custo de 90 milhões de dólares. Cada uma custa 10 dólares (R$ 54).

Difícil imaginar que, mesmo com as estultices de Eduardo Pazuello, o MS abra mão de não liderar o processo. Aliás, ele já disse que as 100 milhões de vacinas do Butantan, assim como as 100 milhões da Fiocruz, estarão sob a guarda federal, do Ministério da Saúde, que na verdade é quem vai pagar a conta.

Mas, ainda assim, se num gesto de rebelião fosse possível comprar as vacinas do Butantan? Ora, os estados como entes subnacionais seriam a primeira opção dessa linha de ação. Até porque eles teriam que bancar a compra e distribuí-las igualitariamente.

Imagina o governador Paulo Câmara comprando um lote de 2,8 milhões de vacinas da Sinovac e distribuindo somente no Recife, em Petrolina e em Carnaíba porque João Campos, Miguel Coelho e Anchieta Patriota se dispuseram a comprá-las? Alguém acha que os demais 181 municípios ficariam calados?

Tem mais: alguém pode imaginar o que aconteceria se o Ministério da Saúde não fizer sua parte, o Governo de Pernambuco idem e essas três cidades decidirem começar a vacinação sozinhas? Teriam condições de vacinar apenas os munícipes registrados na suas secretarias de saúde?

Segundo o Butantan, 913 dos 5.568 anunciaram a intenção de compras das vacinas. E pelo que pediramm a demanda já soma mais de 200 milhões de doses. 

O Butantan, que vai fazer as vacinas, tem tradição no setor. Mas ele só tem um cliente: o Ministério da Saúde. Faz vacina para os programas nacionais do Brasil. Alguém já viu uma Nota Fiscal do Butantan para prefeitura?

Então, é importante que o gesto das prefeituras seja compreendido mais como uma forma de pressão junto ao Governo Federal do que possibilidade de chegar na ponta de uma campanha desse porte. Embora isso ajude o Governo do São Paulo, que assumiu a compra das vacinas, na esperança de repassar a fatura para a União. Vale mesmo como gesto político.

Então talvez seja mais interessante para os três prefeitos de Pernambuco, e os outros 910 espalhados pelo Brasil, seguirem o gesto de Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, que se apressou em comunicar o obvio: como o Governo Federal anunciou que vai comprar todo o estoque do Butantan, não fazia mais sentido falar em compra direta.

A questão central da ConoraVac hoje é como entregar à Anvisa todos os documentos para se ela aprove o uso de 6 milhões de doses prontas para serem enviadas aos 26 estados e mais o Distrito Federal, de modo que ainda em janeiro elas possam ser aplicadas junto com as outras 2 milhões que a Farmanguinhos vai receber direto da Índia.

Se até a próxima semana pudermos contar com 8 milhões de vacinas, terá sido um avanço enorme no meio dessa barafunda que a questão se tornou por absoluta incompetência do governo. É verdade, isso que acabou, como se viu, criando uma excelente oportunidade para os prefeitos usarem posts nas suas redes sociais e prometer, veementemente, o que nunca terão chance de cumprir.  

Mas e daí? Ninguém recusa um clique de GOSTEI numa rede social. 

(*) Autor/Fonte: Fernando Castilho - Jornalista. Titular da coluna JC Negócios, do Jornal do Commercio.

 


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