Artigo / Opinião: – A inércia eleitoral – Por Maurício Romão (*)
A inércia Eleitoral
-
…Tome-se incialmente a aprovação da maneira do presidente-incumbente governar. As pesquisas nacionais registraram aprovação do governo gravitando no entorno de 45% e desaprovação ao redor de 51%, na média de cada mês…


De janeiro deste ano até a primeira quinzena de maio sucederam-se no Brasil vários fenômenos de grande repercussão midiática e política, com destaque para o escândalo Banco Master/Vorcaro, os reveses do executivo no Congresso (Messias e Dosimetria), as medidas anunciadas ou implementadas do governo federal, visando à eleição deste ano: isenção de imposto de renda, jornada 6 x1, programa Desenrola, fim da taxa das blusinhas, subsídios para a gasolina, o encontro dos presidentes Lula e Trump e, mais recentemente, o episódio Flávio Bolsonaro/Vorcaro.
Em ano eleitoral é de se esperar que tais eventos tenham influência na percepção do eleitorado, notadamente porque alguns deles, os emanados do executivo, podem afetar diretamente as condições de vida da população.
Essa percepção pode ser mensurada através das pesquisas de intenção de votos, de forma agregada, inobstante sem destacar os impactos individuais desses fenômenos sobre o humor dos eleitores.
Tome-se incialmente a aprovação da maneira do presidente-incumbente governar. As pesquisas nacionais registraram aprovação do governo gravitando no entorno de 45% e desaprovação ao redor de 51%, na média de cada mês, desde janeiro a maio (até a 1ª quinzena). Ou seja, em qualquer um dos 5 meses o hiato de aprovação é sempre o mesmo: – 6,0 pontos de percentagem.
Acompanhe-se agora as intenções de voto no 2º turno do presidente Lula e as do seu principal adversário, senador Flávio Bolsonaro. Em cada um dos meses de fevereiro, março, abril e maio deste ano, os dois concorrentes registraram iguais médias de 44% de intenção de votos no 2º turno.
Deduz-se desses achados que os eventos acima listados (à exceção do referente a Flavio/Vorcaro, captado apenas parcialmente na pesquisa Datafolha) não despertaram reações no eleitorado, sejam relativas à avaliação do desempenho do governo, sejam sobre a perspectiva de consignação de votos às principais pré-candidaturas postas.
Afinal, por que a sociedade está como que anestesiada e não reage à ocorrência desses eventos? Não há resposta simples para essa indagação. Entretanto, à guisa de mera delibação, pode-se especular sobre alguns fatores que provavelmente contribuem para essa indisposição de ânimo dos cidadãos:
(1) em ambiente de polarização acirrada como no Brasil pode até haver divergências de opinião intra bolhas sobre determinados temas, mas o posicionamento final de cada bando diante de fatos conjunturais tende a ser coeso, afetivo-identitário. Há pouca mudança de lado. Notícias positivas ou negativas são apoiadas ou rejeitadas em conformidade com o viés de confirmação de cada polo. Então os eventos em lide têm impactos marginais nas manifestações da sociedade captadas nas pesquisas;
(2) a rejeição eleitoral (“não votaria de jeito nenhum”) dos dois principais postulantes à presidência é bastante elevada, nos arredores de 50% para o incumbente e de 45% para o senador, taxas médias invariantes em cada mês deste ano. Nesses patamares de rejeição de líderes e respectivos polos estreitam-se os espaços para eventual migração eleitoral. É o que se chama de “equilíbrio negativo”. O medo da ascensão ao poder do bando adversário reforça o pertencimento do voto para o mesmo campo político-identitário, independentemente dos eventos nacionais;
(3) anúncios de medidas importantes do governo se mostraram de pouco efeito na apreensão cotidiana da população. Mesmo medidas que se traduzam em benefícios imediatos à sociedade não são assim percebidas a ponto de merecerem retribuição de intenção de voto ou manifestações de apreço avaliativo de desempenho da gestão governamental. Ao que parece, o cidadão comum interpreta tais medidas como responsabilidades inerentes às atribuições do executivo, não carecendo de retorno de apoio ou voto, neste estágio do ciclo eleitoral.
(4) Os eventos de grande repercussão para a sociedade são veiculados não mais com narrativa dominante da grande mídia nem com intermediação institucional, como no passado. Em tempos de ruptura tecnológica a internet e as redes sociais levam o indivíduo a assumir a centralidade das comunicações. Nesses ambientes de virtualidade os eventos são consumidos e reinterpretados imediatamente pelos componentes das bolhas. O que é positivo para um bando, é negativo para o outro. Trava-se uma guerra de narrativas em tempo real. Há como que um equilíbrio estável, dado o tamanho similar dos bandos. Nessa senda, as manifestações dos eleitores colhidas nas pesquisas pouco mudam em determinado espaço de tempo.
Em síntese, até antes do episódio Flávio/Vorcaro, a despeito de grandes acontecimentos políticos havidos neste ano, incluindo as medidas governamentais, quando a população foi auscultada pelas pesquisas sobre suas reações avaliativas e eleitorais, detectou-se que os eventos não alteraram a visão atual de mundo do eleitor.
Lembrando Manuel Castells, para quem são as emoções e sentimentos que determinam o comportamento das pessoas, é lógico inferir que o governo não está conseguindo desencadear emoções positivas na coletividade a ponto de alterar sua indiferença, apatia, inércia, pelo menos até agora…

- Os textos de artigos publicados neste blog são de responsabilidade exclusiva dos seus autores.
(*) Autor: – Maurício Costa Romão, Cientista Política, é Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos













